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As implicações do coronavírus para o Comércio Sino-Brasileiro

As implicações do coronavírus para o Comércio Sino-Brasileiro

Por Olavo Caiuby Bernardes e Thiago Tifaldi

2020: o ano do Rato

25 de janeiro celebrou-se o Ano-Novo chinês. As comemorações do Ano-Novo chinês se seguiram ao longo da última semana do mês de janeiro. A data marca o início do ciclo dos doze animais do zodíaco, segundo o Horóscopo Chinês.
2020 será regido por Shu, ou o Rato de Metal, a inspirar o empreendedorismo, os negócios, os investimentos, as aplicações, as aquisições, as descobertas, a abertura de novos caminhos, a busca por conhecimento e por soluções práticas, num ciclo que deverá perdurar até o dia 11 de fevereiro de 2021, segundo o prognóstico chinês.
Assim como o Horóscopo Ocidental, o Horóscopo Chinês se baseia na astrologia, sendo aquele fortemente marcado pela tradição greco-romana, diferindo o Horoscopo Chinês do Ocidental em alguns aspectos, tais como a divisão do ano em ciclos, representados por doze animais que, segundo conta a tradição oriental, teriam aceitado o convite de Buda para com ele celebrar o Ano Novo.

O ciclo dos doze animais do zodíaco chinês teria a seguinte ordem, isso de acordo com a chegada um destes animais à festa de Ano-Novo promovida por Buda: porco, cão, galo, macaco, carneiro, cavalo, serpente, dragão, coelho, tigre, boi e o rato.
A esta altura, o leitor deste artigo deve estar se questionando qual seria a relação de Horóscopo com o Comércio Exterior, com a parceria comercial sino-brasileira, ou mesmo com o coronavírus e suas implicações para o comércio entre Brasil e China; ou se não clicou por equívoco em alguma aba lateral do sítio eletrônico em que pesquisava, e acabara por abrir algum anúncio ou pop-up. Tranquiliza-se o leitor de que não se equivocou, e que seja este o novo ciclo, iniciado em 2020, inspirado pelos predicados empreendedores que o Rato traz.

Todo oráculo traz consigo conselhos, advertências e cautelas a seu consulente, e não seria diferente com o Horóscopo Chinês, que adverte quanto à saúde, pois, sob a regência de Shu, o Rato, haveria predisposição a doenças na região da cabeça, da face, e de inflamações e febres as mais variadas. Curiosamente, febres, tosses, e dificuldades em respirar são sintomas do novo coronavírus. Coronavírus são por definição vírus zoonóticos, transmitidos aos seres humanos por animais. As informações preliminares indicam que o novo coronavírus pode ter vindo de cobras. Vírus zoonóticos atrelam-se à demanda mundial por proteína animal: quanto mais carne, quanto mais animais, mais doenças.

O novo coronavírus parece ter se originado em um mercado da cidade de Wuhan, província de Hubei, na China central . O primeiro alerta recebido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) data de 31 de dezembro de 2019. Voltando à celebração do Ano-Novo chinês, o que deveria ser momento de celebração, de início de novo ciclo, permeado de simbologia e de momento de recomeços, inclusive para novos negócios e empreendimentos, tem sido ofuscado pela emergência do novo coronavírus. posto a importância da China para o comércio mundial. A República Popular da China, recorda-se, atualmente é a segunda maior economia mundial, a maior exportadora mundial de commodities e produtos manufaturados, desde 2009, a segunda maior importadora mundial, depois dos EUA, apta a se tornar o maior PIB mundial nos próximos vinte anos, devido ao seu rápido nível de crescimento. No sítio eletrônico do Ministério da Saúde há extenso material explicativo sobre coronavírus, o que é, quais são as causas, sintomas, seu tratamento, diagnóstico e prevenção.

Importa saber que o vírus que tem causado doença respiratória pelo agente coronavírus, já apresentou casos recentemente registrados em países distantes da China Continental, como o Reino Unido, Itália, Estados Unidos, Austrália, Singapura, entre outros . Até o momento não há conhecimento de casos fatais fora da China Continental. De acordo com as autoridades chinesas, a epidemia já teria deixado 213 mortos, com quase 10 mil casos confirmados de contaminação e 102 mil pessoas em estado de observação. O Brasil investiga alguns casos suspeitos, porém sem nenhuma confirmação até o presente.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou emergência internacional de saúde, na última quinta-feira, dia 30 de janeiro de 2020, e irá padronizar as recomendações para todos os países, com o objetivo de prevenir ou reduzir a propagação transfronteiriça da doença. No entanto, a OMS tem evitado interferir desnecessariamente no comércio e nas viagens, reiterando os enormes esforços que as autoridades chinesas têm realizado para conter a doença, encorajando que os países continuem a fazer comércio e manter relações regulares com a China. Em que pese não ter autoridade legal para sancionar países, a agência da Organização das Nações Unidas (ONU) pode vir a questionar aos governos que justifiquem cientificamente quaisquer restrições de viagem ou comércio que eventualmente sejam impostos durante a emergência internacional, atitude que visa conter quaisquer procedimentos demasiadamente precipitados e alarmistas.

Comércio Exterior Brasil-China

A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, sendo de longe a maior economia dos chamados Brics (Brazil, Russia, India, China and South Africa – esse último incluído posteriormente), termo cunhado pelo então economista do Goldman Sachs, Jim O’Neil, em 2001, para se referir a futuras potências emergentes . Com PIB de US$ 15 trilhões, a República Popular da China é de longe o país com a maior economia dos Brics (para se comparar, o PIB do Brasil é de cerca de cerca de US$ 2 trilhões).

Em termos de relação com países daquele bloco, o que para alguns analistas pode ser visto como artificial, dada a pouca relação existente sociocultural e histórica entre muitos dos países dos Brics, a relação do Brasil com a China supera, em larga escala, toda a relação do Brasil com os demais países do bloco, que vem se reunindo desde 2006, de maneira mais regular, através de cúpulas; desde 2009 vem firmando acordos de cooperação, banco e agência de fomento – Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e Arranjo Continental de Reserva (ACR) – entre outras iniciativas. O último encontro oficial, a XI Cúpula, ocorreu entre os dias 13 e 14 de novembro de 2019, no Palácio Itamaraty, em Brasília.

No Comércio Exterior do Brasil, a China perfilha em primeiro lugar como destinatária das exportações brasileiras, uma pauta sobretudo de commodities e produtos não-manufaturados, como carne e soja, na ordem de US$ 51.53 bilhões, o que, se comparados com os US$ 30.07 de importações, darão a dimensão da balança comercial que nos é favorável, de janeiro a outubro de 2019, segundo o site de notícias da Agência Brasil.

A China é um dos principais investidores estrangeiros no Brasil, uma das principais origens de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED), destacando-se em infraestrutura, setor de óleo e gás, setor financeiro, agricultura, saúde, serviços, inovação científica e tecnológica. Acordos importantes foram firmados recentemente, com a visita do presidente chinês, Xi Jinping, ao Brasil, em novembro de 2019, para a XI Cúpula dos Brics, ocasião em que foram firmados 13 (treze) Acordos e Memorandos de Entendimento nas áreas de política, economia, comércio, agricultura, inspeção sanitária, saúde e cultura com o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro. O comércio entre os dois países atingiu a marca de US$ 98 bilhões, em 2018.

Exemplo do apetite chinês por infraestrutura e novas tecnologias foi a compra da 99 Taxi no país, empresa prestadora de serviço de transporte particular por aplicativo e competidora direta da gigante norte-americana Uber. Vale ressaltar a recente iniciativa dos chineses em projetos de infraestrutura ao redor do mundo, a chamada Belt and Road Initiative – BRI (Iniciativa do Cinturão e da Rota), que busca criar uma nova rota da seda para a China, e que prevê investimentos na casa dos trilhões de dólares, particularmente no continente asiático, africano (a China já é o maior investidor naquele continente) e latino-americano.

As iniciativas chinesas para a área de infraestrutura e energia se alinham bem com o Programa de Parceria de Investimento (PPI), recém lançado pelo atual governo brasileiro, e com outros mecanismos e parcerias bilaterais sino-brasileiras, como a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cospan), instituída em 2004, e que teve sua 5ª Reunião em abril de 2019, presidida pelos vice-presidentes do Brasil, Hamilton Mourão, e da China, Wang Qishan, em Pequim .
Com uma estrutura, em particular ferroviária e portuária insuficiente e bastante defasada em um país de dimensões continentais como o nosso, a China vem sendo um grande player em novas licitações, concessões e projetos de parcerias público-privadas lançadas pelo atual governo brasileiro. Projetos estes que requerem larga soma de investimentos, por grupos nacionais e estrangeiros, mas que ainda carecem de plena confiança internacional, haja visto as questões políticas que o país vem enfrentando em anos recentes, e o discurso anti-China adotado durante boa parte da campanha eleitoral de 2018, pelo atual Presidente Jair Bolsonaro. Há uma expectativa de investimentos na ordem de US$7 bilhões em projetos de infraestrutura, em 2020, por parte da China, no país.

Nesse sentido, ainda que o governo brasileiro cogite em se fechar em relação a produtos chineses, frente a ameaça do coronavírus; ainda que esse fechamento não sofra represálias às exportações brasileiras por parte de autoridades chinesas; e ainda que o Brasil obtenha o direito de manter restrições a produtos chineses, como a Organização Mundial de Comércio (OMC), nesse momento de emergência internacional de saúde, decretado pela OMS, o fato é que atualmente o Brasil precisa muito mais da China, do que a China do Brasil.

A preocupação central do governo brasileiro deveria ser evitar que a crise do coronavírus prejudique as exportações brasileiras à República Popular da China, manter e desenvolver uma relação pragmática e de benefícios mútuos com o gigante asiático, bem como diversificar seus produtos e pauta de exportação, firmar novos acordos multilaterais de comércio e cooperação com outros países e blocos econômicos, como a União Europeia – recém firmado no âmbito do Mercosul e ainda em fase de ratificação pelos Parlamentos dos países envolvidos –, para evitar que futuras ameaças de crises semelhantes venham a acontecer.

[1] Segundo o sítio eletrônico da BBC News Brasil:  “Atualmente, cerca de três em cada quatro novas doenças são zoonóticas.

Nossa demanda por carne está aumentando a nível mundial, e a produção animal está se expandindo à medida que diferentes partes do mundo enriquecem e desenvolvem o gosto por uma dieta rica em carne. Os vírus da gripe tendem a chegar aos seres humanos por meio de animais domésticos. Portanto, a probabilidade de animais infectados entrarem em contato com o homem também está aumentando. O coronavírus é transmitido de animais selvagens para humanos. Na China, os mercados de carne e de animais vivos são comuns em áreas densamente povoadas. Isso poderia explicar por que duas das epidemias mais recentes se originaram lá.” Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51296088>, último acesso em 02/02/2020, às 20h04.

[1] A história de Wuhan remonta 3.500 anos, e foi aonde ocorreu a Revolta de Wuchang, insurgência militar que levou à queda da última dinastia imperial chinesa, a dinastia Qing, e o estabelecimento da República da China. Sobre a Revolta de Wuchang e seus desdobramentos, recomenda-se assistir ao filme O Último Imperador, do cineasta e roteirista italiano Bernardo Bertolucci.


[1] Segundo o sítio eletrônico da BBC News Brasil:  “Atualmente, cerca de três em cada quatro novas doenças são zoonóticas. Nossa demanda por carne está aumentando a nível mundial, e a produção animal está se expandindo à medida que diferentes partes do mundo enriquecem e desenvolvem o gosto por uma dieta rica em carne. Os vírus da gripe tendem a chegar aos seres humanos por meio de animais domésticos. Portanto, a probabilidade de animais infectados entrarem em contato com o homem também está aumentando. O coronavírus é transmitido de animais selvagens para humanos. Na China, os mercados de carne e de animais vivos são comuns em áreas densamente povoadas. Isso poderia explicar por que duas das epidemias mais recentes se originaram lá.” Disponível em <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51296088>, último acesso em 02/02/2020, às 20h04.

[1] A história de Wuhan remonta 3.500 anos, e foi aonde ocorreu a Revolta de Wuchang, insurgência militar que levou à queda da última dinastia imperial chinesa, a dinastia Qing, e o estabelecimento da República da China. Sobre a Revolta de Wuchang e seus desdobramentos, recomenda-se assistir ao filme O Último Imperador, do cineasta e roteirista italiano Bernardo Bertolucci.

1)Segundo o sítio eletrônico da BBC News Brasil: “Atualmente, cerca de três em cada quatro novas doenças são zoonóticas.
Nossa demanda por carne está aumentando a nível mundial, e a produção animal está se expandindo à medida que diferentes partes do mundo enriquecem e desenvolvem o gosto por uma dieta rica em carne. Os vírus da gripe tendem a chegar aos seres humanos por meio de animais domésticos. Portanto, a probabilidade de animais infectados entrarem em contato com o homem também está aumentando. O coronavírus é transmitido de animais selvagens para humanos. Na China, os mercados de carne e de animais vivos são comuns em áreas densamente povoadas. Isso poderia explicar por que duas das epidemias mais recentes se originaram lá.” Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51296088, último acesso em 02/02/2020, às 20h04.
2) A história de Wuhan remonta 3.500 anos, e foi aonde ocorreu a Revolta de Wuchang, insurgência militar que levou à queda da última dinastia imperial chinesa, a dinastia Qing, e o estabelecimento da República da China. Sobre a Revolta de Wuchang e seus desdobramentos, recomenda-se assistir ao filme O Último Imperador, do cineasta e roteirista italiano Bernardo Bertolucci.
3) Disponível em: https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ch.html, último acesso em 02/02/2020, às 19h
4) Disponível em http://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/perguntas-e-respostas-novo-coronavirus, último acesso em 02/02/2020, às 19h42.
5) Disponível em : https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/01/31/reino-unido-confirma-dois-primeiros-casos-de-coronavirus.html, último acesso em 02/02/2020, às 20h.
6) Id.
7) Disponível em: https://noticias.r7.com/saude/epidemia-de-coronavirus-oms-declara-emergencia-global-de-saude-30012020, último acesso em 02/02/2020, às 20h15.
8) Id
9) Disponível em https://www.politize.com.br/brics-o-que-voce-precisa-saber/, último acesso em 02/02/2020, às 21h23.
10) Disponível em http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/politica-externa/mecanismos-inter-regionais/3672-brics, último acesso em 02/02/2020, às 21hh28.
11) Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-11/china-e-o-principal-parceiro-comercial-do-brasil, último acesso em 31/01/2020, às 21hh35.
12) Disponível emhttp://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2019-11/brasil-e-china-firmam-acordos-em-areas-como-politica-comercio-e-saude, último acesso em 02/02/2020, às 21h21.
13) Disponível em < https://exame.abril.com.br/negocios/99-confirma-compra-pela-chinesa-didi-chuxing/>, último acesso em 02/02/2020, às 21:24.
14) Disponível em https://climainfo.org.br/2019/06/10/brasil-na-mira-da-iniciativa-chinesa-belt-and-road/, último acesso em 02/02/2020, às 21h29.
15) Disponível em http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2019-05/na-china-mourao-preside-5a-reuniao-da-cosban, último acesso em 03/02/2020, às 21h30.
16) Disponível em https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-volta-a-rota-de-investimento-dos-chineses,70003154067, último acesso em 02/02/2020, às 21h36.
17) Disponível em https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2019/08/acordo-mercosul-ue-deve-baratear-produtos-mas-forcar-eficiencia-e-produtividade, último acesso em 02/02/2020, 21h43.

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