fbpx

A crise no Oriente Médio e as exportações brasileiras

A crise no Oriente Médio e as exportações brasileiras

Gustavo Almeida

O ataque norte-americano cometido no dia 2 de janeiro de 2020, no aeroporto de Bagdá, capital do Iraque, e que matou oito pessoas, dentre elas Qasem Suleimani, o principal general iraniano, desencadeou um clima de tensão mundial. Todos procuram entender suas consequências.

Cronologia

No dia seguinte ao atentado, China e Rússia criticaram o presidente Donald Trump pelo ataque, enquanto França, Reino Unido e Alemanha, por meio de nota conjunta de seus líderes, pediram amplo diálogo e que o Irã mantenha os compromissos assumidos no acordo nuclear de 2015, já que o país informou que deixará de cumprir as limitações impostas.
Angela Merkel, chanceler da Alemanha, e Vladimir Putin, presidente da Rússia, definiram um encontro para discutir questões relacionadas ao Oriente Médio. A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) declarou apoio aos Estados Unidos. Adil Abdul-Mahdi, primeiro-ministro iraquiano, concordou com a retirada das tropas norte-americanas, após o parlamento do país ter decidido por tal iniciativa; o governo norte-americano ameaçou o país com a imposição de sanções.
Por meio de nota oficial do Itamaraty, o Brasil manifestou seu apoio aos Estados Unidos, considerando o ataque uma medida de combate ao terrorismo ; além disso, o governo se manifestou quanto à manutenção do comércio com o Irã . A encarregada de negócios da Embaixada do Brasil no Irã, Maria Cristina Lopes, foi convocada pelas autoridades do país para apresentar explicações .
Depois de alguns dias de ameaças mútuas, o Irã atacou duas bases norte-americanas no Iraque. Após o acontecimento, Donald Trump confirmou que não houve vítimas e informou que novas sanções serão aplicadas ao Irã. Além disso, solicitou que um novo acordo nuclear fosse elaborado e que os países signatários do acordo nuclear de 2015 o abandonassem. Mesmo com as ameaças, o pronunciamento foi considerado moderado e capaz de encerrar as ações militares. 

O cenário atual ainda está carregado de incertezas. Mesmo diante de um possível abrandamento da situação, a crise está longe de se encerrar em definitivo, especialmente em termos políticos e diplomáticos.
Em termos econômicos, quais seriam os efeitos para o Brasil se novos conflitos ocorrerem ou mesmo se a instabilidade local permanecer acentuada? Do mesmo modo, um possível abalo das relações comerciais com o Brasil diante do posicionamento político de seu governo poderia ocasionar perdas significativas? Para essa resposta, a análise dos dados da Balança Comercial Brasileira com o Oriente Médio pode apresentar importantes subsídios.

[1] Disponível em: <https://congressoemfoco.uol.com.br/governo/governo-brasileiro-manifesta-apoio-aos-eua-contra-ira/>. Acesso em: 6 jan. 2020.

{2} Disponível em: <https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/01/07/bolsonaro-diz-que-brasil-vai-manter-comercio-com-ira.htm>. Acesso em: 7 jan. 2020.

{3} Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2020-01/ira-convoca-embaixador-brasileiro-para-explicar-nota-do-itamaraty>. Acesso em: 7 jan. 2020.

A Balança Comercial Brasileira com o Oriente Médio

De janeiro a novembro de 2019, o total exportado pelo Brasil para os países do Oriente Médio foi de US$ 10,1 bilhões. A participação dos países foi a seguinte: Irã, 21%; Emirados Árabes Unidos, 21%; Arábia Saudita, 18%; Omã, 9%; Barein, 6,4%; Iraque, 6%; Catar, 4,3%; Israel, 3,5%; Jordânia, 3%; Iêmen, 2,9%; Líbano, 2,3%; Kuwait, 1,9%; Síria, 0,59%; e Palestina, 0,20%.

Como é possível observar, o Irã é o principal destino das exportações brasileiras no Oriente Médio. De janeiro a novembro de 2019, o valor foi de US$ 2,1 bilhões. Os Emirados Árabes Unidos importaram US$ 2,07 bilhões e a Arábia Saudita, US$ 1,82 bilhão. O Iraque, país em que ocorreu o ataque dos Estados Unidos, importou cerca de US$ 595,95 milhões no mesmo período.

A lista dos principais produtos exportados pelo Brasil em 2019, de janeiro a dezembro, apresenta os seguintes itens: (i) soja, mesmo triturada; (ii) óleos brutos de petróleo; (iii) minérios de ferro e seus concentrados; (iv) celulose; (v) milho em grãos; (vi) carne bovina congelada, fresca ou refrigerada; (vii) carne de frango congelada, fresca ou refrigerada, incluindo miúdos; (viii) demais produtos manufaturados; (ix) farelo e resíduos da extração de óleo de soja; (x) café cru em grãos.

Com base nessa lista, foram selecionados os produtos em cuja importação há a participação de países do Oriente Médio. Portanto, esses países estão entre os dez que mais importaram esses produtos. Com base nessa premissa, de acordo com dados do Ministério da Economia, Indústria e Comércio Exterior,  foi elaborada a tabela a seguir > tabela artigo Gustavo

Fonte: Ministério da Economia – Indústria, Comércio Exterior e Serviços, 2019.

[4] Disponível em: <http://www.mdic.gov.br/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/comex-vis/frame-bloco?bloco=oriente_medio>.

[5]  Disponível em: <http://www.mdic.gov.br/index.php/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/balanca-comercial-brasileira-acumulado-do-ano>. Acesso em: 7 jan. 2020.

Com base nos dados acima apresentados, algumas importantes conclusões podem ser tecidas: (i) o total exportado dos principais produtos perfaz US$ 5.520.221.838 bilhões, metade do total exportado para todo o Oriente Médio; (ii) dentre os dez principais produtos exportados pelo Brasil, em seis deles há a participação de algum país do Oriente Médio como principal importador; (iii) em três itens (minério de ferro, carne bovina e carne de frango) há mais de um país do Oriente Médio como principal importador; (iv) o Irã é o país com maior presença na importação desses produtos; (v) mesmo com variação negativa de 2018 para 2019 em alguns produtos, ainda assim o respectivo país se mantém entre os principais importadores.

Como se observa, os principais produtos exportados para o Oriente Médio, além de outros que não estão entre os principais, mas também têm altos volumes, são agrícolas (bovinos vivos, carne suína, miudezas, fumo, arroz em grãos), setor com diversas regras protetivas (tanto de natureza regulatória como sanitária) em todos os países do mundo, além de dificuldades negociais e mercadológicas presentes em qualquer negociação.
Assim, a substituição ou alteração de destinos de exportações não pode ser fácil e rapidamente direcionada para outros países. Enfim, não se altera o destino de bilhões em exportações com uma simples “virada de chave”.

Conclusão

A balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 46.657.443.844 bilhões em 2019, o menor valor em 4 anos, e isso representa uma queda de 19,6% em relação a 2018, quando o superávit foi de US$ 58.033.423.819 bilhões. Em comparação a 2018, as exportações caíram 6,2% e as importações, 2,8% . De modo geral, a principal razão da queda pode ser determinada pelas oscilações na economia mundial e sua retração para 3%.

A corrente de comércio, a soma das exportações mais as importações em 2019, foi de US$ 30.710.314.883 bilhões, com queda de 4,8% em relação a 2018, quando o valor foi de US$ 32.261.768.340 bilhões. O valor de 2019 representa cerca de 20% do Produto Interno Bruto, porcentagem muito semelhante aos últimos anos, superior apenas à década de 1990, quando essa relação era de cerca de 14%.

O Brasil necessita aumentar suas trocas com o exterior e melhorar os dados comerciais. Assim como outras regiões, o Oriente Médio possui enorme importância nesse processo de retomada. A abertura comercial deve ser trabalhada na prática, e o que já foi obtido não pode ser perdido.

[6] Disponível em: <http://www.mdic.gov.br/index.php/comercio-exterior/estatisticas-de-comercio-exterior/balanca-comercial-brasileira-acumulado-do-ano>.

Youtube

Linkedin 

Ilegalidades no procedimento especial de controle aduaneiro

Deixe uma resposta

×

Carrinho

preloader